O que é a salvação?

Recentemente fui levado a um debate muito interessante com um familiar, a respeito da salvação. Esse familiar, evangélico, defende dogmas tradicionais de algumas denominações cristãs, que acreditam que Cristo morreu por nós; que com este ato Ele “lavou os nossos pecados” e que basta que tenhamos fé neste conceito para obtermos a tão desejada salvação, ou seja, para irmos para o Céu após a existência aqui na Terra.

Simples assim. Quanto às coisas erradas que fazemos, não há problema. Nós somos do jeito que somos. Basta pedir perdão ao Pai e podemos até mesmo continuar a fazer tais coisas normalmente, pois Deus é amor e nos perdoa por tudo o que fazemos.

No conceito deste familiar, a coisa mais importante que Cristo fez por nós foi morrer, já que com isto ele lavou os pecados de todos e que este ato representa “a maior prova do amor de Deus por nós”.

Na defesa de sua posição, enviou-me várias passagens bíblicas, que ressaltam a importância da fé para a salvação.

Não posso negar que fiquei pasmo com estes pensamentos, que para mim não fazem o menor sentido quando analisamos o que fez e o que nos ensinou Jesus, conforme Seu próprio Evangelho.

Creio que, em relação à tese exposta, a única coisa com a qual nós espíritas concordamos é com o fato de que existe uma alma ou espírito imortal, que sobreviverá à perda de seu envoltório físico. De resto, divergimos até mesmo do conceito de salvação, já que a salvação defendida tradicionalmente é algo que se conquista abruptamente (ou seja, de toda a eternidade, basta algumas décadas para que se determine o seu destino para todo o sempre), enquanto nós espíritas acreditamos no progresso contínuo do espírito, onde a evolução, o aprendizado, vão se concretizando aos poucos, em nossa vivência no mundo dos espíritos e também nas experiências na carne.

De imediato lá vai um questionamento sobre a conquista abrupta da salvação: se o nosso futuro eterno é decidido em algumas poucas décadas em que vivemos na Terra, o que acontecerá com quem morre ainda criança? E aqueles que nascem incapazes, sem poder de discernimento?

Se para nos salvarmos basta crer que Jesus morreu por nós e que assim lavou-nos de todos os nossos pecados, o que vai acontecer àqueles que nasceram e morreram antes da vinda de Cristo e que, portanto, não souberam da existência Dele, assim como àqueles que viveram e morreram em regiões do mundo onde Sua palavra não tenha chegado, como os povos do oriente e alguns povos indígenas, por exemplo? Deus Todo Amor e Misericórdia deixará, porventura, de olhar por estes?

Voltando à questão da minha admiração pela tese defendida por meu ente querido, penso que ela simplesmente desconsidera tudo o que Jesus fez e ensinou. Em todo o Seu Evangelho, Jesus defende e dá o exemplo da prática do amor e da caridade descompromissada. No célebre Sermão da Montanha, ele descreve claramente o que precisamos fazer para nos aproximarmos do Pai. Em várias passagens do Evangelho, como citei inclusive na postagem do dia 20/10/2016 deste site, intitulada “Sobre os trabalhos de apoio ao reequilíbrio das pessoas, realizados pelos trabalhadores espíritas”, Jesus orienta inúmeras vezes seus discípulos a fazerem basicamente duas coisas: que ensinassem e curassem, ou seja, disseminassem a Boa Nova (os ensinamentos do Mestre) e praticassem a caridade. Aliás, o que Ele pede aos seus discípulos é justamente a réplica de Suas próprias ações, pois ENSINAR e CURAR foi o que Jesus fez em toda a sua curta vida pública.

Jesus deixou-nos dois MANDAMENTOS: 1- AMAR a Deus acima de todas as coisas; 2- AMAR ao nosso próximo como nos amamos a nós mesmos.

Mas, afinal, o que são mandamentos? Mandamentos são pilares, regras básicas e fundamentais, determinações essenciais. Ensinar e curar foi a forma que Jesus utilizou para colocar Seus dois mandamentos de amor em prática, trazendo-nos alívio e orientação para uma vida e um futuro melhor.

Jesus nunca disse: “Em breve retornarei à Casa do Pai. Levarei comigo vossos pecados. Não precisais fazer mais nada. Apenas creiais nisto e obterão a vida eterna”. E não afirmou porque não faria sentido afirmar. Porque, se o fizesse, estaria contradizendo as próprias orientações Dele, que recheiam todo o Evangelho. Tal dogma, assim, jamais poderia substituir os dois principais mandamentos e demais orientações deixadas pelo Cristo.

Jesus disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai a não ser por mim”, onde deixa claro que Ele não era o Pai mas o enviado do Pai. Era um com o Pai, no sentido de que representava fidedignamente o Pai e estava aqui para dar testemunho Dele e que quem cresse em suas palavras (ensinamentos), estaria seguindo na direção do Pai Eterno.

Como, no entanto, afirmar que temos fé, que acreditamos de verdade em algo, se não colocamos este algo em prática? DIZER que acredita é muito diferente de FAZER o que acredita. Defender o que se diz acreditar mas não fazer o que se diz acreditar caracteriza a hipocrisia.

Você crê ou não nos ensinamentos de Jesus? Se não crê, dificilmente vai trazê-los para a prática, para a vida cotidiana. Neste sentido, concordamos plenamente que a fé não é apenas primordial, mas essencial. E é assim simplesmente porque não é nada fácil FAZER o que Jesus nos pede: colocar em prática o amor. Teremos que ter fé verdadeira naquilo que Ele ensina para poder vencer o nosso orgulho e egoísmo (vencer a nos mesmos), de forma a, por exemplo, olhar para as necessidades do outro (quem quer que seja) como se fossem as nossas próprias ou para desejar ao outro somente aquilo que ansiamos para nós mesmos.

Nós espíritas acreditamos sim que somos nós mesmos os responsáveis pelo nosso progresso evolutivo ou “salvação”. Para isto Deus nos deu o livre arbítrio, que inclusive nos diferencia dos animais. Simples observações sobre a vida bastam para concluir que Deus não nos dá nada sem a nossa contrapartida em trabalho: Ele não nos dá o peixe. Ele não nos dá nem mesmo a vara para pescar, pois esta nós mesmos teremos de confeccionar. Mas Ele provê o bambu ou a madeira necessária. Nós entramos com a vontade e com o trabalho. É assim que as coisas funcionam. Assim é a Lei.

Se Deus não nos provê sequer o alimento sem exigir nossa contraparte em trabalho, por que ele haveria de nos dar, de mão beijada e sem nenhum esforço, o Paraíso? Não, meus amigos. As coisas não funcionam assim. Tudo o que o ser humano conquistou até hoje foi com muito trabalho. É assim desde o Princípio. E assim reza a Lei. Nós mesmos, então, é que teremos que conquistar um dia, com a nossa própria determinação, dedicação e esforço (e muito, muito amor), o direito de acesso ao Paraíso. Jesus não tomou a nossa cruz nem nos isentou do trabalho. Ele disse: “toma a tua cruz e siga-me”.

A evolução é pessoal. Cada um de nós deverá lutar suas próprias batalhas, onde o inimigo maior não está fora de nós, mas dentro. Neste processo, aprenderemos a amar verdadeiramente e a ajudarmo-nos uns aos outros.

Acreditar nisso não é tirar o mérito de Jesus. Muito pelo contrário. Jesus veio para esta Terra e fez o que precisava, semeando Seus ensinamentos, informando-nos a respeito do que precisamos fazer para seguir no caminho do Pai. O retorno Dele à Casa Paterna é apenas o retorno ao lar e às demais tarefas que o aguardavam. Para nós, o importante foi a semeadura, a vida e a obra que Ele nos deixou e que devemos utilizar como guia, como diretriz para a nossa vida.

Assim, muito mais importante do que a morte Dele foi Sua vida.

Quanto às coisas erradas que insistimos em fazer, é verdade que Deus de Infinita Bondade nos perdoa. Saibamos, porém, que “antes de apresentar vossa oferta diante do altar, buscai reconciliar-te com vosso irmão”, ou seja, antes de pedir perdão a Deus pelos nossos atos, precisamos nós mesmos tomar a atitude de remissão de nossas faltas junto àqueles a quem prejudicamos ou ofendemos. [Sem trabalho, nem perdão há].

Texto escrito por Marcos Silva, 53, administrador de empresas, estudioso da Doutrina Espírita, que professa desde 2007. Colaborador e um dos fundadores da Casa Espírita Paulo de Tarso, Marialva PR.

Sobre lobos e cordeiros

Vivemos um momento evolutivo onde, infelizmente, prevalecem na Terra as energias mais grosseiras, mais pesadas, oriundas da nossa própria forma de pensar.
Podemos dizer que, se antes a selvageria das guerras, a injustiça e a crueldade faziam parte do cotidiano do mundo inteiro, hoje a maldade absoluta se restringe a eventos e regiões isoladas.
Mas se é assim, se de fato a crueldade se restringe a eventos como a bárbarie ocorrida nos presídios no Amazonas e no Rio Grande do Norte ou em regiões específicas, como aquelas que se encontram em guerra ou dominadas por facções radicais como Taliban ou Estado Islâmico, porque a energia negativa, densa, pesada, ainda domina a Terra?
Isso ocorre porque, se já não prevalece no mundo a maldade e a crueldade absolutas, somos ainda dirigidos e controlados preponderantemente por desejos e paixões inferiores, cuja fonte são os nossos instintos primitivos.
Esses instintos, extremamente poderosos, são os principais geradores do orgulho e do egoísmo e portanto de todas as outras imperfeições que possuímos. Mas podem sim ser suplantados e vencidos pela razão, pela vontade da mente consciente.
É aí que entram os ensinamentos de Jesus. Sua orientação moral, se acatada, assimilada e implementada, vai fazendo com que nos transformemos interiormente, trocando, aos poucos, a influência do instinto animal pelas intuições espirituais.
Há aqueles, no entanto, que não desejam controlar seus instintos. São dominados por eles, gostam disso e querem que continue assim. Normalmente se julgam superiores aos demais e seu único objetivo é satisfazer, a qualquer custo, suas próprias vontades e desejos.
Espíritos com tais características, aos quais denominamos maus espíritos ou espíritos inferiores, tentam se impor sobre aqueles que já assimilaram em algum grau as intuições espirituais.
Não querem que adquiramos conhecimentos, especialmente sobre o plano espiritual, onde agem discretos e silenciosos, protegidos pelas sombras da invisibilidade e pelas trevas da nossa ignorância.
Esta é a guerra que vem sendo travada há milênios nos diversos planos existenciais da Terra.
Na Terra não existem espíritos perfeitos, o que significa que todos nós, em algum grau, ainda somos dominados pelos instintos. E é aí que estão as brechas, as “portas” por onde agem, na surdina, nossos irmãos maldosos.
Desta forma, compreendamos que, no estágio em que nos encontramos, ser influenciado em algum grau pelos instintos inferiores não é exceção. É regra.
É por isso que Jesus pede que não julguemos uns aos outros. Como podemos crucificar alguém em virtude dos seus erros se também estamos cheios de “pecados”? Quem pode, sem culpa, atirar a primeira pedra?  Afinal, quem é lobo e quem é cordeiro, se todos erramos? Sim, é verdade que Jesus também disse: “Ide e não pequeis mais”. Mas ainda aí a lição continua válida. Nós mesmos já estamos conseguindo não “pecar” mais? É lícito exigir do outro o que nós mesmos também não conseguimos fazer ainda?
Sejamos então bons alunos, bons cristãos e bons espíritas e façamos como nos foi ensinado por Jesus. Se todos, indistintamente, temos defeitos, tomemos para nós, de cada um, somente os bons exemplos e virtudes, nunca seus maus exemplos e defeitos. Se meu pai bebe e fuma mas é muito amoroso e honesto, devo ser também amoroso e honesto mas não beberrão e fumante. E sobre os defeitos dele, além de ajudar no que puder, agirei com a máxima indulgência, compreendendo que ele, mais cedo ou mais tarde, terá de trabalhá-los e eliminá-los um a um, porque assim é, porque assim reza a Lei.

“Ide, ensinai e curai”.
“Amai-vos uns aos outros e instruí-vos”.

Texto escrito por Marcos Silva, 49, administrador de empresas, estudioso da Doutrina Espírita, que professa desde 2007. Colaborador e um dos fundadores da Casa Espírita Paulo de Tarso, Marialva PR.

Sobre os trabalhos de apoio ao reequilíbrio das pessoas, realizados pelos trabalhadores espíritas

 

“E, convocando os seus doze discípulos, deu-lhes virtude e poder sobre todos os demônios, para curarem enfermidades. E enviou-os a pregar o reino de Deus, e a curar os enfermos”.
(Lucas 9: 1-2)

“E, saindo eles, percorreram todas as aldeias, anunciando o evangelho, e fazendo curas por toda a parte”. (Lucas 9:6)

“Também, em qualquer cidade em que entrardes, e vos receberem, comei do que puserem diante de vós. Curai os enfermos que nela houver, e dizer-lhes: é chegado a vós o reino de Deus“. (Lucas 10: 8-9)

“E, chamando os seus doze discípulos, deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e para curarem toda a enfermidade e todo o mal”.
(Mateus 10:1)

“E, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus.
Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça dai”.
(Mateus 10:7,8)

Jesus, em sua curta passagem por esta Terra, deixou-nos uma maravilhosa mensagem, um conjunto de ensinamentos que comumente denominamos de “A Lei do Amor”.

No célebre  “Sermão da Montanha” (Mateus capítulos 5, 6 e 7), ele nos deixa um verdadeiro tesouro quase que no formato de uma cartilha, com as atitudes que devem ser adotadas por seus seguidores. Em várias outras partes do seu Evangelho, dá-nos também claras orientações para que busquemos disseminar os seus ensinamentos, além de curar nossos irmãos enfermos. Para que possamos fazer isto, diz que nos bastaria ter “fé como um grão de mostarda” (Mateus 17:14-20)

Isto significa que todos nós podemos curar as pessoas, se tivermos fé em Deus e em nossa capacidade, como Seus trabalhadores?

Para responder esta pergunta, precisamos considerar aí questões relacionadas à tradução e também ao significado das palavras em determinada época, pois sabemos que o sentido das palavras vai mudando com o tempo.

Colocado este adendo, nós espíritas acreditamos que podemos sim emanar energias positivas em favor de alguém ou de alguma coisa. Prova disto é o passe, que nada mais é do que uma “transfusão” de boas energias, assim como a prece. Mas, para a obtenção de bons resultados, não basta apenas a fé de quem está cedendo as energias. A fé se faz necessária também a quem está recebendo essas energias e, como nenhuma Lei pode ser burlada (no caso, a Lei de Causa e Efeito), faz-se necessário também que o paciente  tenha merecimento (perante esta Lei). É por isso que Jesus, após curar, sempre dizia: “Vá e não peques mais”. Desta forma, fica entendido que a “cura” não depende só do curador mas também do próprio paciente.

Quanto maior a pureza de espírito do curador, ou seja, quanto maior seu grau de elevação espiritual, maior sua capacidade de contribuir para o restabelecimento do equilíbrio do paciente, não esquecendo que nossas companhias espirituais refletem nosso padrão vibratório (pensamentos, sentimentos, intenções), de forma que, nos trabalhos de cura, estaremos sempre acompanhados por espíritos aptos ao trabalho. Ou seja, o curador encarnado nunca trabalha sozinho. Ressalte-se que, tão importante quanto a capacidade dos curadores (encarnados e desencarnados) é a fé e as mudanças na forma de pensar e de proceder que precisam ser implementadas pelo próprio paciente, sobre si mesmo.

Embora seja clara a orientação de Jesus para que seus seguidores ensinassem e curassem, a cura sempre foi relegada a segundo plano pelas instituições cristãs. Das duas tarefas, a prioridade sempre foi dada à disseminação da Boa Nova. Talvez seja assim porque continua a nos faltar a tão necessária fé nos ensinamentos do Mestre e, por consequência, na capacidade que temos de promover senão a cura, pelo menos o alívio.

Dentro do movimento espírita, percebemos claramente três tipos de casas (ou centros): aquelas voltadas basicamente ao estudo do Evangelho e dos ensinamentos doutrinários; aquelas que além do estudo se dedicam à assistência social; e aquelas que, além dos estudos, se dedicam preferencialmente  ao apoio ao reequilíbrio das pessoas.

Sim, falamos em apoio ao reequilíbrio e não em cura, primeiro porque entendemos que doença é um sinal de desequilíbrio, seja do organismo físico, dos corpos sutis ou da mente (impactados por nossas práticas desta atual existência e também de existências anteriores). Em segundo lugar porque, como já dissemos, a cura não depende somente do curador mas primordialmente do próprio paciente, que, invariavelmente, necessita modificar-se interiormente.

Para a realização deste trabalho tão importante e que tem ajudado tanta gente, as casas espíritas acabam por utilizar, além da energização através do passe magnético (marca registrada do Movimento Espírita), diversas outras ferramentas, oferecidas sempre de forma gratuita, aplicadas por irmãos voluntários que se dispõe à prática desta valiosa forma de caridade. Entre elas, destacamos: a psicologia, a cromoterapia, o reiki, a apometria, a acupuntura e os florais de Bach, entre outras, ressaltando que nenhuma dessas técnicas compõe ou se integra ao corpo da Doutrina Espírita.  São técnicas independentes, com origem e história distintas, assimiladas pelos trabalhadores espíritas por sua própria conta, em cursos promovidos pelas mais diversas instituições, todas externas ao Movimento Espírita. Há de se ressaltar ainda que tais ferramentas, chamadas terapias alternativas, quando ministradas nas casas espíritas, terão sempre caráter de complementaridade em relação aos tratamentos que estejam ou que deverão estar sendo levados a cabo pela medicina tradicional alopática.  Ou seja, serão oferecidos às pessoas, invariavelmente, como auxiliares e/ou complementares ao tratamento proposto pelo médico, jamais como substitutos deste. Assim, até que se obtenha a cura ou o controle do problema, o tratamento médico jamais deve ser ignorado, interrompido ou preterido pelo paciente.

Texto escrito por Marcos Silva, 49, administrador de empresas, estudioso da Doutrina Espírita, que professa desde 2007. Colaborador e um dos fundadores da Casa Espírita Paulo de Tarso, Marialva PR.

Espiritismo, evolução e reencarnação

O espiritismo constitui-se em doutrina religiosa, filosófica e também científica. É religiosa porque, tendo como base os ensinamentos de Jesus, defende a existência de Deus e a importância da fé. Filosófica, porque estuda com profundidade diversas questões da existência e do comportamento humano; o certo e o errado. Científica, porque exige que cada idéia passe necessariamente pelo crivo da razão, da lógica; porque considera ser o conhecimento a espinha dorsal a sustentar a evolução moral do ser humano.

Nós, espíritas, acreditamos que a evolução eterna de todas as coisas é um fato e ocorre desde a criação do universo. Acreditamos que os seres humanos já estagiaram em outros reinos da natureza e um dia, em continuidade ao seu processo evolutivo, adentrarão no reino seguinte, o angelical, ao atingir a perfeição necessária.

A crença no processo evolutivo individual de todas as consciências por força e vontade próprias, talvez seja a grande diferença estrutural entre as idéias espíritas e as do cristianismo tradicional. E isto faz toda a diferença!

A possibilidade de evolução individual, o trabalho sobre nós mesmos defendido por Jesus, ao qual denominamos “reforma íntima”, é que dá suporte à tese das reencarnações sucessivas, onde os indivíduos, passo a passo, existência após outra, vão se depurando, até um dia chegar ao “Sede perfeitos como o vosso Pai Celestial é perfeito”. Atingir este objetivo, como propôs o Cristo, seria possível em uma única existência? Certamente que não. Sabemos como é difícil nos modificar. Peguemos apenas um dos nossos inúmeros defeitos, vícios ou imperfeições e veremos que às vezes uma vida inteira ainda é insuficiente para superá-lo. Pois imagine o conjunto deles.

O cristianismo tradicional restringe a idéia da evolução e também do livre arbítrio. Sua ideologia, estranhamente, dá maior importância à carne (temporária) do que ao espírito (eterno), defendendo, por exemplo, que “vive-se (na carne) apenas uma vez e depois dá-se o juízo”. Desta forma, o espírito, imortal, só pode evoluir moralmente e decidir seu próprio futuro nas poucas décadas em que ocupa um corpo físico. A partir da morte física já não há mais possibilidade de mudar o próprio destino, nem que se queira. Quem, nessas poucas décadas, foi ruim, irá para o “inferno” e sofrerá irremediavelmente, para sempre. Quem foi bom, estará a salvo no “céu”. As almas não suficientemente puras para entrar no “céu” irão para o “purgatório”, que também é local de sofrimento, e de lá nunca mais sairão se ninguém se lembrar mais delas. Já aqueles que não tiveram tempo sequer para serem testados, como as crianças e os mentalmente incapazes, assim como os “justos” do Antigo Testamento, irão para o “limbo”, onde não sofrerão qualquer pena mas estarão afastados de Deus para todo o sempre e dali também jamais sairão.

Por tais dogmas, entende-se que, exceto para as puras almas cristãs que habitarão o “mais alto dos céus”, o Pai Celestial, além de desconsiderar o perdão, também deixa de ser um Pai amoroso (teses tão defendidas por Jesus), para tornar-se um ser sádico e injusto, que concede aos seus filhos algumas décadas de vida física (para alguns muito sofridas, para outros bem mais confortáveis), para depois supliciá-los pelo resto da eternidade. A concessão do livre arbítrio por somente uma fração infinitesimal da vida eterna do espírito, mesmo continuando ele a ser um um ser inteligente após a morte do corpo físico, assim como o fato de, tratando-se de espíritos puros, não se merecer o “céu” simplesmente por não ser cristão ou por ter vivido antes da vinda do Mestre, são deliberações que não parecem combinar com o Amor, com a Sabedoria e nem com a Justiça divinas.

Quem, em sã consciência, atribuiria tais determinações ao Pai, a Pura Perfeição e Bondade? Ainda mais Ele que, Onisciente, certamente conhece o destino de cada um de Seus filhos desde o momento em que os criou. Aliás, eu, particularmente, nunca consegui encontrar, nos ensinamentos de Jesus, quaisquer referências que justifiquem tais dogmas, da forma como são defendidos tradicionalmente.

Nós espíritas acreditamos que nos diversos níveis vibratórios do plano espiritual de fato existam locais que poderíamos chamar de “céu”, de “inferno”, de “purgatório” ou “limbo”, juntamente com uma infinidade de outros. Mas tais “moradas do Pai” são todas temporárias, adequadas a cada fase evolutiva em que nos encontramos como espíritos. A bondade de Deus é grande demais para imaginarmos que ele trancafiaria para sempre seus filhos em alguma fornalha de churrasco ou mesmo em algum buraco escuro, sujo e fétido, para que sofressem para sempre. Qual seria o objetivo de tal atitude tão destituída de amor?

Por acreditarmos na justiça e na perfeição absoluta de Deus é que não aceitamos a existência de seres privilegiados e outros amaldiçoados para sempre (anjos e demônios). Para nós, os chamados demônios são apenas indivíduos maus mas que sempre terão oportunidade para redimirem-se, enquanto os chamados anjos são pessoas com grau de evolução mais adiantado na escala universal, nível porém que todos nós podemos alcançar.

Por acreditarmos na justiça e na perfeição de Deus é que entendemos que uma única existência na carne não faz nenhum sentido, até porque as condições não são igualitárias para todos. Como justificar a existência de pessoas que, por vezes já desde o nascimento, apresentam-se  miseráveis, deficientes físicos ou mentais, destituídos de beleza física, passando fome, vivendo em regiões turbulentas e violentas, sofrendo amargamente por toda uma vida enquanto outras nascem em berço de ouro, lindas, perfeitas e vivem em lugares encantadoras, calmos e com todo o conforto? Uma única existência na carne não pode explicar isto. Mas a Lei de Causa e Efeito (Lei de Ação e Reação ou Lei do Karma, como preferirem), aliada às encarnações sucessivas podem.

Mas por que Jesus não foi claro, explícito em relação à questão da reencarnação? Talvez por não ser realmente uma questão tão simples. Talvez a resposta esteja no sermão da última ceia, onde Ele disse: “Eu ainda tenho muitas verdades que desejo vos dizer, mas seria demais para o vosso entendimento neste momento. No entanto, quando o Espírito da verdade vier, Ele vos guiará em toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos revelará tudo o que está por vir”. (João 16: 12-13)

Texto escrito por Marcos Silva, 49, administrador de empresas, estudioso da Doutrina Espírita, que professa desde 2007. Colaborador e um dos fundadores da Casa Espírita Paulo de Tarso, Marialva PR.